domingo, 19 de julho de 2020

Aqueles dois

Ela achava que não aconteceria de novo, não daquela forma. Já tinha navegado o amor algumas vezes para saber que paixão assim deixa a gente sem ar no meio do dia e ela tinha que ser funcional. Ela dizia que quanto mais a gente sobe mais o tombo machuca, e quando alguém perguntava se ela preferia passar a vida em banho maria evitando se apaixonar de novo, ela dizia que já teve seu quinhão de paixões avassaladoras e por isso queria ficar em terra firme.  (só diz isso quem já amou muito. Joelho ralado é privilégio de quem se apaixonou)
            Mas o amor é um bicho sorrateiro e não dá direito de escolha nem ao coração mais patchwork, e foi assim, contra todas as certezas e batalhas internas, que ela conheceu alguém. (sempre penso em como são os minutos anteriores a conhecer alguém. Será que os planetas se alinham, o mundo entra em câmera lenta, dois carros batem, ou acontece um trovão? A paixão para mim é isso, a história de um acidente, um acontecimento absolutamente inevitável)
Foi em um aniversário onde nenhum dos dois queria ir. Ela foi carregada por sua melhor amiga e roommate que investia há alguns meses na aniversariante, e ele era amigo de trabalho da mesma, e na verdade estava ali porque o escritório todo apostou que ele não iria, afinal, ele nunca vai a nada. Na chance de embolsar 50 reais e deixar a Criação da agência com cara de tacho, tomou banho e foi.
Se encontraram no balcão do bar. Ela já estava lá quando ele chegou pedindo uma cerveja sem perceber que ela estava com o braço estendido e o ticket na mão. (vale dizer que ela tem horror a quem fura fila. Já brigou no metrô, no restaurante a quilo e no banco. Já foi xingada por crianças e velhinhos, mas não deixa ninguém furar fila). Ela reclamou, disse que privilégio do macho hetero tinha limite e que ela estava há uns 10 minutos se acotovelando ali. Ele pegou a cerveja antes (o tal do privilégio é infalível) e entregou para ela. Ela aceitou e deu sua ficha na mão dele.
Já que a amiga naquele momento estava mimetizada na aniversariante na pista de dança, e ele não gostava de ninguém do escritório, começaram a conversar. E na verdade perceberam que tinham algo em comum pelas coisas que detestavam: estar ali, festas em geral, música eletrônica, e os hábitos de outras pessoas, gente que demora a pedir no restaurante, gente que larga tudo para fazer um mochilão, gente que não gosta de coração de galinha.
Depois de meia hora de conversa e duas cervejas quentes para cada, descobriram que se chamavam Ana e Edu. Edu mesmo, não Eduardo (segundo ele, o primeiro bullying que sua mãe praticou), e mais uma hora depois e algumas danças tímidas de músicas que eles finalmente gostavam (Pixies e Daniela Mercury) perceberam que estavam gostando um pouco um do outro também.
Se beijaram porque não restava mais nada a fazer, e porque queriam. O beijo não encaixou (você seguiria adiante depois de um beijo que não encaixa?) mas decidiram ir para casa mesmo assim. Para a casa dele, que tinha um gato recém adotado e um pouco de medo de deixá-lo sozinho por muito tempo. Ela achou que ele era esquisito e charmoso na medida certa, mas enquanto ele falava ela rezava para ele não ser só mais um esquerdomacho da Zona Sul, ela não aguentaria mais um.
No apartamento descobriu que ele não era. Continuaram conversando sobre coisas em comum que detestavam, dando beijos que ora encaixavam e ora não, até que ela pediu um antialérgico quando começou a empolar na altura do colo por causa do gato.
Treparam. (O sexo foi melhor do que o beijo). Ela não quis dormir lá, disse que ficaria com medo de empolar ainda mais e a glote fechar, e ele a levou na portaria quando o carro chegou (e mandou mensagem perguntando se ela tinha chegado bem).
Marcaram de se encontrar na próxima sexta em um bar com coração de galinha e cerveja em boa temperatura. Descobriram também as coisas que gostavam em comum, e em um momento muito solene, ele pegou sua mão e disse que não se livraria do gato, já estava apegado e nunca faria isso com um bicho. Ela respirou aliviada (ele não era um babaca) e disse que podiam ir para a casa dela.
Chegando lá encontraram sua roommate de calcinha e sutiã na cozinha, a amiga do escritório veio logo em seguida. Transformaram a situação em uma cerveja pós sexo e ficaram os quatro até 3h da manhã conversando. Naquela noite não treparam, estavam bêbados demais, mas o sexo rolou no dia seguinte entre bafo matinal, olheiras e aquele constrangimento que só a primeira manhã juntos é capaz de proporcionar.
Como era sábado (e como ela tinha gostado do cheiro dos pêlos do peito dele, e da forma com que dormia silencioso) decidiram permanecer juntos. Foram tomar café da manhã na padaria ainda lidando com o constrangimento, falando pausadamente, mas rindo e contando histórias das pessoas que descobriram ter em comum. Era tímido, mas era fácil, e isso fazia ser promissor. (e “promissor” era uma palavra que ela fugia, pois promissor era o que fazia a gente acreditar)
A sexta terminou no domingo fim do dia, e só não se arrastou pela semana porque adultos calejados têm medo. (mas se tem algo mais forte do que o medo é o desejo, e o desejo fez com que se escrevessem todos os dias até chegar a sexta de novo)
Continuaram se encontrando, e cada vez com mais frequência. Quando perceberam, já estavam frequentando festas e encontros dos amigos, combinando o outro dia, e o que fariam para jantar. Depois de alguns meses ele perguntou para ela o que eles eram, e ela disse que não imaginava que depois dos 30 anos precisasse pedir alguém em namoro, mas pediu, e ele ficou feliz. 
Hoje ela está fazendo um ciclo de injeções antialérgicas, e ele procura um apartamento mais arejado. Eles não sabem ainda, mas vão se mudar para lá juntos, e vão ser felizes, vão brigar, vão se amar, se questionar, mas ela ainda vai gostar do cheiro que mora no peito dele, e ele ainda acha que a forma que ela ri tem umas três notas diferentes, e jura que um dia aprende a tocar violão só para tirar.
Quando acham que estão em crise, um dos dois (sem o outro saber) faz o movimento contrário aos anos que estão juntos até voltarem para aquela festa, aquela pista e aquela briga por cerveja no balcão de bar. E reconstruindo tudo se lembram porque se amam, e se amam de novo.
O amor depois de um tempo continua promissor, aquela palavra que ela tinha tanto medo. E por mais que os cafés da manhã de sábado na padaria não tenham mais a timidez do início, tem o silêncio compartilhado, que é o que existe de mais confortável em viver com alguém.
Eu não sei se eles ficam juntos para sempre ou não, daqui de onde eu vejo só me resta torcer para continuarem sendo felizes e gentis um com o outro (que é o que acho que eles têm de mais bonito, embora eles continuem achando que seja odiar as mesmas coisas).

3 comentários:

  1. Texto tão bom que parece conversa... você me contando sobre pessoas factíveis, tanto que parece que as conheço...PG rocks!

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  2. De tão delicioso a leitura! Torço que seja para sempre! No pensamento continuei a construir o futuro do casal!

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