sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

E se.

Lá vou eu adotar outro gato. Se não bastasse todo sofrimento que eu passei com o último gato, com a última configuração “casal e gato”, aqui estou eu olhando uma ninhada de quatro vira-latas encontrados no estacionamento do Jóquei “sem comida, sem mãe” que a amiga dela encontrou a caminho do trabalho.
“Vamos adotar um!”
Eu não tenho resistência para filhote de gato, nem para o olhar de filhote que ela tem.
Lá vou eu adotar mais um. E como “é melhor ter dois” eu já me vejo adotando o segundo daqui a uns meses, passando por uma feira de adoção a caminho de casa e me apaixonando por um exemplar vesgo (Copacabana tem mais pet shop que idoso) e assim a gente vai viver ao redor dos dois, nos tornaremos esses pais de bicho insuportáveis, dos que fazem a voz do gato, como se ele estivesse conversando com a gente, e se preocupam quando viajam porque sentem saudade.
Lá vou eu de novo, me apegar todo, pra na hora de separar eu perder os gatos para ela, como já aconteceu antes, com uma antiga ela, porque sou eu que saio de casa e “gato é territorialista, melhor ficarem comigo” e eu ir morar com algum amigo até me ajeitar e parar de sofrer de saudades dos bichos.
(Será que ela ainda compra Whiskas sachê?)
Então porque adotar de novo?
“Olha a carinha deles”
“Gato é a melhor coisa do mundo”
“Abandonados no jóquei”
“As pessoas não têm coração”
Eu tenho. Talvez até demais, e memória curta, porque quando eu vi já estava nessa configuração novamente.
“Nunca mais vou morar junto, porque quando mora junto o amor acaba, quando junta contas o amor acaba, porque no cotidiano o amor acaba, porque no não lavar as louças o amor acaba, porque quando mete dinheiro na equação o amor acaba.”
 Porque quando o amor acaba ela leva os bichos, e eu fico só.
 Então como é que eu vim parar aqui de novo?
Depois que a gente se beijou pela primeira vez naquele restaurante em Copa eu queria falar com ela o dia inteiro, passava o dia inteiro pensando em mensagem irônica de cunho sexual e referências musicais que me fizessem mais interessante. Depois a gente dormiu junto numa sexta e eu saí de lá na segunda, depois eu conheci os amigos, depois eu fui passar o Natal na cidade de interior dela, fiz aquela barriga de porco, toquei violão com o avô e ela chorou, sentou no meu colo e disse que me amava.
“Te amo de volta”
Disso até a primeira gaveta de roupas foi um pulo, e aqui estou eu, morando junto, adotando um gato – talvez dois – fazendo tudo o que eu jurei que não faria mais, fazendo tudo de novo.
E quando a gente se separar? E se ela quiser ficar com os gatos, como já aconteceu? E se a gente terminar com mágoa, e se ela se apaixonar por outro, e se eu me apaixonar? E se acabar o tesão? E se o amor acabar mesmo sem ninguém se apaixonar por outra pessoa, mas acabar minguado assim como as plantas que ela compra e a gente nunca lembra de regar? E se a gente se odiar? E se a gente se odiar tanto que vai ser impossível falar do fim quando ele acontecer?
(O que é errado, porque a única pessoa que vai entender o que eu estou passando nessa separação vai ser ela, que também vai estar lá.)
E se a gente causar uma ruptura nos amigos? E se o Rio de Janeiro se tornar uma cidade partida por uma guerra afetiva, com lugares que eu não vou mais poder frequentar? E se der errado? E se eu sofrer? E se eu fizer ela sofrer?

E se der certo?