quarta-feira, 7 de junho de 2017

Piada interna

Um relacionamento é a maior piada interna que você pode ter com alguém. Um relacionamento é uma marca, uma cicatriz, às vezes uma tatuagem que você faz com 16 anos em São Tomé das Letras (aquela fada tocando flauta sentada em um cogumelo, aquela tribal, as estrelinhas) você pode não querer lembrar, mas ela está ali forjada a ferro no seu corpo.
Como passar impune ao encontrar alguém com quem você já viveu uma história? Você pode desviar o olhar, mas você sabe, e ele também, que naquele domingo ele lavou a roupa e você fez o almoço, e na segunda vocês pagaram as contas, e na quinta vocês treparam no sofá, e no sábado tiveram aquela briga, e ao longo dos anos vocês tiveram viagens, gripes, cirurgias, natal com a família, discussões, mais contas, mais sexo, mais amor, até que num apagar de luzes esse amor acaba. Corte seco.
Tudo isso passa pela sua cabeça no momento em que você esbarra com o seu ex objeto de desejo. O mesmo “oi” com que você cumprimenta alguém que trabalha no prédio do seu escritório, aquele abraço partido com distância segura, toda a burocracia do fim.
Um relacionamento é a maior piada interna que você tem com alguém, e não importa qual dos dois saiu mais machucado – não é uma competição – só você e ele sabem exatamente que gosto tem este fim. 
Só você e ele conhecem esta história como ela realmente foi, mesmo que um dos dois queira esquecer, a cicatriz está ali, o trauma que aparece na imagem de um raio x, na tatuagem dos 16 anos em São Tomé das Letras, a piada interna que volta em um dia qualquer, um lapso de memória que te faz rir, mesmo tantos anos depois, lembrando da vida passada que aquele amor teve e do quanto você é construído por ele.
Sim, por ele também.

Um comentário:

  1. Tirando a tatuagem, você presenciou meu último fim? Perfeito, emocionante fiquei rindo sozinha dessas piadas internas que não podemos mais dividir. S2

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