segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Os meus assédios.

Meu primeiro assédio aconteceu aos 8 anos com o porteiro do meu prédio. Por alguns dias, quando eu chegava da escola, ele me sentava no colo dele de forma estranha, ou me abraçava inclinando seu corpo para frente e para trás. Eu me sentia muito desconfortável e um dia contei para a minha mãe. Esse foi o meu primeiro assédio físico, e deixou bastante marcas. Mas não precisa ser físico para machucar para sempre.

Aos 20 e poucos anos eu sofri um outro tipo de abuso, quando um ex me chamou de gorda muitas vezes, e me fez acreditar que de fato eu era e que isso era uma coisa ruim. Em um ano eu ouvi quase que diariamente coisas como “quer trepar? Então perde essa pança” porque eu estava 8 quilos acima do meu peso e acreditei que era feia, chata e desinteressante. Ele fazia questão de me dizer que eu era menos. - Que ganhava menos que ele, que dependia dele emocionalmente e financeiramente, que não me virava sozinha, que não era magra, que tinha libido demais.  Mas ainda assim eu não ia trepar, “porque eu era gorda”.

 Passei a ter crises de pânico mais ou menos nessa época e procurei ajuda. No consultório eu contei em muitas seções para o médico sobre a minha dificuldade de emagrecer, sobre a quantidade de vezes que ele me chamava de gorda. Para me “acalmar”, o médico colocou as mãos na minha coxa e disse que o que fazíamos ali “era uma espécie de sexo, que era para eu acreditar que eu era bonita sim”. Ele era um psiquiatra.

 Não contei para o meu namorado o que tinha acontecido porque tive medo. Procurei outro médico, contei toda a história. O médico novo disse que o anterior deveria ser denunciado. Um mês depois me pediu uma foto nua para ver se “meu namorado tinha razão ou não”. Ele também era psiquiatra.

Um dia resolvi deixar os médicos e o cara. Quando eu resolvi ir embora, depois de uma conversa e alguns combinados burocráticos, o namorado disse que “depois de tudo o que ele tinha me falado, mesmo assim eu não tinha tido coragem para mandar ele tomar no cú”.  Bati a porta de casa e nem assim eu mandei. - porém nunca mais permiti que ninguém me tratasse desta forma. (e também tive muito medo quando descobri que eu podia ser amada com leveza e cuidado. E que os que viriam depois não necessariamente seriam como ele)

Eu sofro abuso quando sei que ganho bem menos do que os homens que exercem exatamente a mesma função que eu. Quando morro de medo de andar sozinha à noite, quando sei que um taxista está me dando uma volta as 3h da manhã, mas não posso reclamar de nada porque sou mulher e estou sozinha.

Eu sofro abuso quando alguém me pergunta “porque eu saí de casa usando uma roupa tão transparente. O que eu quero com isso?” e sofro abuso quando alguém questiona o fato de eu escrever sobre amor e ainda assim ser feminista. Como se uma coisa excluísse a outra.

Cada abuso, cada palavra escrota, cada humilhação, cada mão que passaram em mim, cada medo de andar na rua, cada injustiça salarial, cada duvida que já tiveram sobre o meu potencial me deixaram marcas

E ainda assim querem me tirar o direito de escolha, querem que eu morra se um dia engravidar e não quiser ter o filho, querem me enfiar goela abaixo um conceito de “tradição, família e propriedade” que não me desce, querem que eu pare de falar de direitos, que eu pare de questionar meu salário, que eu continue tendo medo, continue ouvindo atrocidades calada, que eu não use o que eu quero usar, vá para onde eu quiser ir, ou dê para quem eu queira dar.

Querem me tornar menos, quando eu demorei tanto para entender que eu podia ser mais.

Eu tinha 20 e (muito poucos) anos quando passei um ano inteiro ouvindo diariamente que eu era feia, que eu era menos, que eu não tinha força o suficiente para manda-lo tomar no cú.

Mas um dia eu mandei. E por isso nunca mais eu fico quieta.

Nenhuma de nós vai ficar.

6 comentários:

  1. Passei por várias experiências, inclusive a de abuso... Fui salva por pessoas e livros até que um belo dia me surpreendi contente por ser mulher.

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  2. Perfeito ! Excelente texto ! Este com certeza representa as mulheres .

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  3. Q bom q vc não se calou, q deixou o namorado cretino, q abandonou os péssimos psiquiatras e q encontrou em vc mesma, força, confiança, desejos e novos imprintings q te tornaram a Paula de hoje.
    Te desejo muito amor e coragem.

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  4. Você tem o dom de emocionar e de mostrar a dura realidade com a sutileza e a fortaleza de uma mulher inteira!

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