sexta-feira, 9 de março de 2018

Agarre com punhos fortes


Agarre com mãos fortes a felicidade que não é sempre pessoa ou algo concreto. É aquela sensação física de preenchimento, de que tudo está em seu devido lugar mesmo que nem dure o dia inteiro. (embora eu torça para que dure, para que esse sentimento de copo cheio e água calma do mar até o pescoço te abrace pelo tempo que der)
Agarre com punhos fortes porque ela é um trovão. A felicidade chega e muda tudo, você sente, e pode não acontecer o dia inteiro, mas você ouve o barulho, corre pra janela pra ver o estrondo e a luz que fica, o arroubo, esse atropelamento de euforia (que pode até vir de um acontecimento grandioso, mas no meu caso veio desses seus olhos cor de madeira, e daquele minuto em que você olhou pra mim, e sem saber, me quebrou ao meio.)
Segura, não deixa a felicidade ir, e na pior das hipóteses, se algo ou alguém te desviar desse caminho, fecha os olhos e volta para este lugar, para a música que você ama no fone de ouvido, para o ato, qualquer que seja o ato que te cure - escrever, cantar, correr, amar - para o cheiro de café da casa dos seus avós, para as primeiras horas de um domingo preguiçoso, sua solidão, você espalhada na cama sem ter hora, mas com um abacate maduro em cima da mesa da cozinha para ser café da manhã. Lembra do movimento do seu quadril, subindo e descendo em cima dele enquanto você assiste tudo pela sombra que se forma na parede, um cinema lindo, um bailado, as mãos surpreendentemente fortes, que mãos. Lembra dos primeiros minutos de um filme no cinema, do momento do show onde eles tocam a sua música favorita e você fecha os olhos e tudo faz um sentido absurdo mesmo sendo tão, tão pouco. Volta para esse lugar quando precisar, isso tudo é seu e de mais ninguém.
Amanhã, é até verdade, o amor pode acabar, o trabalho acabar, a saúde bambear, a infiltração aparecer no teto da casa, mas não importa, segura o trovão hoje, segura enquanto você sente, e joga os pedaços de pão pelo caminho da memória para que seja fácil retornar a ele.
E principalmente, não tenha medo da felicidade. Nada de mal vai te acontecer só porque você é feliz, ou porque quer ser. Sorrir é permitido, querer é permitido, e ficar bem também.
Eu prometo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

E se.

Lá vou eu adotar outro gato. Se não bastasse todo sofrimento que eu passei com o último gato, com a última configuração “casal e gato”, aqui estou eu olhando uma ninhada de quatro vira-latas encontrados no estacionamento do Jóquei “sem comida, sem mãe” que a amiga dela encontrou a caminho do trabalho.
“Vamos adotar um!”
Eu não tenho resistência para filhote de gato, nem para o olhar de filhote que ela tem.
Lá vou eu adotar mais um. E como “é melhor ter dois” eu já me vejo adotando o segundo daqui a uns meses, passando por uma feira de adoção a caminho de casa e me apaixonando por um exemplar vesgo (Copacabana tem mais pet shop que idoso) e assim a gente vai viver ao redor dos dois, nos tornaremos esses pais de bicho insuportáveis, dos que fazem a voz do gato, como se ele estivesse conversando com a gente, e se preocupam quando viajam porque sentem saudade.
Lá vou eu de novo, me apegar todo, pra na hora de separar eu perder os gatos para ela, como já aconteceu antes, com uma antiga ela, porque sou eu que saio de casa e “gato é territorialista, melhor ficarem comigo” e eu ir morar com algum amigo até me ajeitar e parar de sofrer de saudades dos bichos.
(Será que ela ainda compra Whiskas sachê?)
Então porque adotar de novo?
“Olha a carinha deles”
“Gato é a melhor coisa do mundo”
“Abandonados no jóquei”
“As pessoas não têm coração”
Eu tenho. Talvez até demais, e memória curta, porque quando eu vi já estava nessa configuração novamente.
“Nunca mais vou morar junto, porque quando mora junto o amor acaba, quando junta contas o amor acaba, porque no cotidiano o amor acaba, porque no não lavar as louças o amor acaba, porque quando mete dinheiro na equação o amor acaba.”
 Porque quando o amor acaba ela leva os bichos, e eu fico só.
 Então como é que eu vim parar aqui de novo?
Depois que a gente se beijou pela primeira vez naquele restaurante em Copa eu queria falar com ela o dia inteiro, passava o dia inteiro pensando em mensagem irônica de cunho sexual e referências musicais que me fizessem mais interessante. Depois a gente dormiu junto numa sexta e eu saí de lá na segunda, depois eu conheci os amigos, depois eu fui passar o Natal na cidade de interior dela, fiz aquela barriga de porco, toquei violão com o avô e ela chorou, sentou no meu colo e disse que me amava.
“Te amo de volta”
Disso até a primeira gaveta de roupas foi um pulo, e aqui estou eu, morando junto, adotando um gato – talvez dois – fazendo tudo o que eu jurei que não faria mais, fazendo tudo de novo.
E quando a gente se separar? E se ela quiser ficar com os gatos, como já aconteceu? E se a gente terminar com mágoa, e se ela se apaixonar por outro, e se eu me apaixonar? E se acabar o tesão? E se o amor acabar mesmo sem ninguém se apaixonar por outra pessoa, mas acabar minguado assim como as plantas que ela compra e a gente nunca lembra de regar? E se a gente se odiar? E se a gente se odiar tanto que vai ser impossível falar do fim quando ele acontecer?
(O que é errado, porque a única pessoa que vai entender o que eu estou passando nessa separação vai ser ela, que também vai estar lá.)
E se a gente causar uma ruptura nos amigos? E se o Rio de Janeiro se tornar uma cidade partida por uma guerra afetiva, com lugares que eu não vou mais poder frequentar? E se der errado? E se eu sofrer? E se eu fizer ela sofrer?

E se der certo?

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Amaremoto

Eu furacão, você brisa.
Eu ponderação, você explosão.
Você às vezes é minha mãe, meu irmão, e o carinha que me come de quatro falando absurdos no meu ouvido.
Eu sua e ao mesmo tempo tão do mundo.
Você um rio que corre tranquilo, eu maremoto de pensamentos.
Você que só faz planos quando abre os olhos de manhã.
Eu rígida na vida e nos ossos.
Eu questionamento.
Você e aquele olhar que me mira gritando certeza.
(Eu não sei o que é certeza.)
“E nós?” você pergunta.
Eu não faço ideia de pra onde estamos indo. 
(Ora para o seu rio, ora pro meu maremoto) 
Se hoje somos amigos, irmãos, namorados, marido e mulher.
Eu não sei de nada, e essa minha mania de perguntar tudo é uma forma de pedir que a sua mão ajude a me guiar nessa insanidade que é viver.
Não existe nada de mais difícil e mais bonito, e está sempre, sempre acabando.
Mas hoje eu tô aqui.

E você diz que isso é só o que importa.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O bolo

Eu tento fazer um bolo vegano de presente para uma amiga enquanto alongo minhas costas para me livrar de uma dor crônica que é culpa de uma cabeça que não para de pensar.
Eu não prego quadros, não dobro as roupas quando elas vem da lavanderia, eu não sou boa em guardar amores em caixas e definitivamente não faço bolos. Isso sou eu tentando dar sentido a um monte de coisas que me sobra, tentando aplacar angústias e desejos com farinha de aveia e mensagens de texto que nunca serão entregues.
Eu domino poucas coisas, mas sempre fui boa na arte de girar pratinhos, todos eles estão aqui enquanto ou eu vejo o mundo acabar na minha frente sentada comendo pipoca, ou fico em pé segurando uma mangueira de incêndio. 
(Hoje espero o mundo acabar e também espero o cheiro de banana com canela se alastrar pela casa.)
Tenho tentado melhorar.
Perdoei (praticamente) todas as pessoas que me fizeram mal, remendei meu coração com agulhas de crochê e cola quente, tenho rezado para os meus santos, me alongado e tomado florais.
Eu tenho deixado o café de lado, feito pilates para tentar remediar a dor crônica nas costas, mandado e-mail com explicações para os atrasos de trabalhos acumulados, me matriculei na natação, tirei os aplicativos de redes sociais do meu celular, escrevo o romance novo todo dia de manhã e agora até cozinho.

(Tudo isso na tentativa de me adaptar para não sentir mais vontade de te comer ou sentar na sua cara porque sei que você faz mais mal do que o bolo com lactose.)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Lista

Escrever é a regulagem da minha cabeça. 
Eu ainda estou esperando um terapeuta holístico que mude minha vida, como as pessoas dizem.
Caminho entre luz e sombra e a vantagem de já ter ido muitas vezes para a sombra é aprender a jogar migalhas de pão pelo caminho como João e Maria, sabendo como voltar pra si. Com o tempo esse retorno se torna mais rápido.
Meditar às vezes faz bem, às vezes não.
Já fiquei (bastante) de coração partido, e quando achei que estava impune ao sadismo e ao ego dos meus amores a vida foi lá e jogou na minha cara a imperfeição dos homens que teimo em achar que conheço. A imperfeição dos homens que mentem. 
(Se muitas mulheres te dizem que o cara é tóxico, ele é. Não se muda alguém que tem falha de caráter)
Sexo, natureza, caminhada e jantares resolvem quase todas as vezes, mas comer mal tem um limite. E eu tô falando de carboidrato vazio, conservante e gente tóxica.
Guardar dinheiro foi a lição mais importante que me ensinaram depois de dizer por favor e obrigada (Embora só a parte do por favor e obrigada eu faça de verdade)
Com o tempo descobri que no amor alguém que sempre volta para você é tão importante quanto aquele que fica.
O que eu quero mesmo nessa vida é cabeça boa, as músicas certas e dinheiro pra pagar viagens.
Amigos e família são sim a coisa mais importante do mundo.
Trabalhar sem fazer o que se ama - mesmo que na paralela - é tomar veneno lento.
É preciso aprender a quebrar padrão, não importa quantas vezes você tente, porque insistir em algo que você sabe que te faz mal, ou que vai te deixar mal, é desculpa de sádico. (Também estamos trabalhando com afinco nessa aí)
 Não é só Gilberto Braga que cria excelentes vilões, gente má existe de verdade.
 Não deixe ninguém te quebrar e não deixe ninguém te amar seletivamente sendo cego para quem você é de verdade.
Bonito é quem te enxerga e escolhe andar junto. 
Festa boa é a que você canta e dança ao mesmo tempo.
(Depois dos 30 você realmente olha para as pessoas pensando: na minha época a gente ia pra Casa da Matriz.)
Casar e ter filhos deve ser legal, mas tudo bem se não for o objetivo da sua vida. É ok se você não tiver um grande objetivo também. 
Escrever dá sentido, melhora quase tudo, e o leitor cura. É alguém que te pega pela mão e valida o buraco, o amor ou a agonia, e por isso te faz companhia no mundo.
Publicar livro não é o que te faz escritor. Não conseguir fazer outra coisa além de escrever é.
(Mas lançamento de livro é melhor que aniversário) 

Tomar banho de cachoeira é necessário, revisar essa lista com frequência também.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A selva da minha natureza humana

Apenas um lado da cama está desfeito, a prova real de que você não está aqui. A cama deste jeito é uma metáfora bonita desta relação. Essa minha arte de dormir na diagonal, arremessar travesseiros em ataques de sonambulismos e, ainda assim, acordar com o seu lado da cama imaculado. Prova do meu mal dormir e do espaço que eu guardo para você. 
Eu não te amo o tempo todo, mas te amo todos os dias. Minha percepção sobre você é esse amor que é planeta, embora eu não deixe de ver as paixões que são satélite - todas orbitam ao seu redor -  enquanto eu sou saturno: um anel circulando uma barriga um pouco acima do peso e a seriedade dos que nascem velhos com um signo de terra.
Eu sinto sua falta ao mesmo tempo em que jogo charme para o mundo. Combino cafés, almoços, drinks e cinemas para preencher os dias que eram ocupados por nós. Sua ausência traz excesso de mim.
Escrevo "saudades" para você e para outros, e absolutamente nenhum deles me faz te amar menos. 
Tenho medo de quase tudo, tesão por muita gente, vontade de casar de papel passado, vontade de ficar solteira, vontade de não ir trabalhar para te encontrar do outro lado do mundo, uma urgência em ser a melhor profissional que eu posso. Eu tenho questões, angústias, maluquicezinhas, crises, desejo descabido e os sentimentos mais diversos e incongruentes não param de crescer na selva dessa minha natureza humana.
Eu sou muitas, eu quero você e todo mundo, mas enquanto eu ligar o som e colocar dois pratos para jantar porque teimo em esquecer que você não está em casa, pode ter certeza de que o que eu sinto é enorme. Mesmo que não seja amor o tempo todo, é amor também.
(Só um lado da cama continua desfeito.)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Texto para revista Minotauro

A velhice dos meus pais é o relógio da minha data de vencimento correndo. A casa da minha infância amarelada, o papel de parede de flores mofado, a cama grande agora pequena, tudo isso me encara a retina enquanto eu penso se devo ou não amar você.
Minha avó segura na minha mão e me diz que você é um anjo, minha mãe questiona se eu vou conseguir te amar pra sempre ou não, os porta-retratos reconstruídos com fotos atuais das subfamílias da minha família comprovam a teoria do meu avô: “se não der certo, separa”.
Eu tão machucada, mas ao mesmo tão nova nesse negócio de amor tô aprendendo aos poucos a entender que acaba, relacionamento e vida, e as vezes fico aqui paralisada vendo a casa da infância ruir junto com a pele do corpo dos meus pais, e do meu, enquanto seguro a chave do apartamento sem saber se te dou ou não. Eu achava que o mundo e nós acabaríamos junto. Isso quando “nós” ainda éramos eu e o outro, quando eu achava que amor era uma escolha de um dia, que nos outros eram só afirmação, algo que você decide se sim ou se não, e se a resposta for positiva, seguirão juntos até o fim dos dias.
(Mas o fim chegou inesperadamente num domingo solar e eu fui inverno até você aparecer.)
É difícil ter fé de novo no amor, penso nisso enquanto vejo a vida correr comigo correndo ao lado feito maratonista, para aproveitar o tempo que me resta junto aos meus. Então topo, vamos juntos, de novo, insistentes nesse lance de amor.
Meu prazo de validade está correndo, “se não der certo separa”, o importante é ter memórias para contar para os netos na casa amarelada da infância deles, sendo personagem da melancolia de outra pessoa, que vive para tentar repetir as coisas que você já viveu.